domingo, 26 de junho de 2011

Descaminhar

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Quando um descaminho acha o seu desvio tudo se alivia - Marisa Monte/Arnaldo Antunes

Desconfiei que todo o sentido do meu descaminho
rumo e significado
andasse escondido no silêncio tímido e confortável
do não vivido não escrito não falado
Na minha palavra pouca
Na minha vontade rouca
No meu sorriso forçado

Desconfiei que o meu silêncio quebrado
pacífico e justificável
andasse engolindo escondido certos sapos:
Não-quisto, Não-sentido e Não-pensado.

Mas descaminho não tem rumo,
o desvio alivia seu significado
Enquanto os sapos não digeridos coaxam
Quebrando o meu silêncio quebrado

___


Desvario fruto de um domingão típico de fim de período, com mil tarefas acadêmicas e domésticas por fazer. E excesso de Marisa Monte, é claro.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Um verso e meio

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Parece que me perdi daquela vida que era tão minha,
e quase, um quase quase certo, desaprendi a ser sozinha.

Mas há ainda o tempo, maestro da vida e senhor da morte,
Que reedifica os escombros de um coração que já foi forte
Mas quem se importa? Nem o tempo deus de Caetano é perfeito:
Que agora e sempre tudo transcorra no meu tempo, do meu jeito.


Observação: Não preciso explicar que não consegui terminar, né? Por enquanto fica desse jeito mesmo...



Outra observação: Aos desavisados, cabe colocar um poeminha aqui:

Autopsicografia - Fernando Pessoa

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."

quarta-feira, 27 de abril de 2011

No meu disco voador

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Sinto falta de encontros de verdade.
É que às vezes bate uma preguiça louca de ter que trajar essa minha pele tão desconfortável e desajustada, máscara do assustador e delicioso desnudamento mútuo que raramente acontece, por dentro, nos encontros de verdade.

Deixar ver o íntimo pode ser como dividir o lanche no recreio, ou ainda o curioso 'mostra o seu que eu mostro meu', porque, nesse caso, a esperança pela reciprocidade gera a concessão.
Também não se deve se vestir assim de alma para qualquer um. É coisa íntima demais, e além de afinidade, tem que ter cosmicidade.
O contato entre duas almas nuas é o melhor recurso que a memória tem para manter as pessoas conectadas.
Mas, geralmente, depois de um encontro assim, cada um segue a seu modo, a seu tempo, no seu caminho - vez ou outra se cruzam, por acaso (ou não) como todos os outros encontros dessa vida.



(música mais linda mundo, hino eterno dos desajustados)

domingo, 13 de março de 2011

(Temporary) Happy Ending

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Eu não costumo procurar videos, tanto que os que posto aqui são apenas pela música em si.
Acontece que por acaso (como quase sempre) encontrei esse video de As Life Found You, do alemão Tim Neuhaus, e graças a minha fascinação por coisas lindas e simples, me senti na obrigação de recomendar.

Um cômodo com paredes brancas, 5 atores gracinhas, papelão e uma ideia muito bacana.
Pode parecer ridículo, mas me fez chorar, e olha que a TPM ainda tá looonge, viu...



O álbum The Cabinet saiu em janeiro desse ano, mas ainda não ouvi direito pra opinar.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Por querer entender demais

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Dormiram juntos na noite anterior, como já era costume. Criaram em pouquíssimo tempo e tão despretenciosamente uma intimidade que poucos casais conhecem, e nem eram exatamente um casal. 
Eram? Gostavam-se, porém sabiam-se imersos em uma realidade cuja data de validade expiraria em poucos dias.


_ Um doce pelos seus pensamentos...
_ Taí uma coisa que ninguém nunca vai comprar.


Nutriam sentimentos diferentes pela humanidade que todos carregam, mas eram cientes dela. Discutiam-na, detestavam-na, ou acabavam rindo e, vez ou outra, encantando-se.
Aliás, buscavam estar cientes de tantas coisas que talvez pecassem justamente por querer saber e entender demais.
Aquela poderia ser a última noite que passariam juntos, e mesmo se não fosse, simbolizava o fim de um ciclo para ambos. Sabiam que dali em diante seria tudo diferente, mas seus corações impacientes e já calejados de outras paixões e vivências ansiavam que não fosse.


Obviamente, foi.



(De volta mais uma vez, depois de um século sem internet. Sem musiquinha hoje.)



terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Janeiro! - Decemberists e Sleeping At Last

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Seria uma coincidência engraçadinha duas das músicas que mais mexeram comigo nos últimos dias terem "January" no título, sendo que estamos em janeiro e ambas chegaram aos meus ouvidos de forma totalmente aleatória.
Seria, SE elas não fizessem parte de um álbum que está para ser lançado esse mês ainda e um EP fresquíssimo.

A primeira lindeza, do álbum The King Is Dead (Jan 2011):




E a segunda, do EP da série Yearbook, January:





Ai que meu coraçãozinho não aguenta!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Divagações de fim de ano – o clichê

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Nunca gostei desse tipo de texto, mas ele brotou a despeito da minha vontade. E essas coisas a gente respeita, né.


Que a presunção da razão e a idiotice da objetividade, inerentes a qualquer pseudopensante como eu, não sufoquem meus ideais verdes e embaçados, meus arroubos românticos, nem meu gosto por clichês.  Afinal, parece que fomos além das expectativas de Nelson Rodrigues e o número de idiotas da objetividade extrapolou os 100 milhões (não falo apenas de jornalistas ou pessoas do ramo, dica).

Que meus cânones sejam eleitos por sua carga de estrago, de incômodo e de inquietação, muito mais que pela intelectual ou formal. Afinal, quando o assunto é arte, a teoria pode ser um pé no saco que eu não tenho, e o ridículo (como a forma desse texto) pode ter o seu valor.

Que a cada decepção ou frustração eu continue jurando nunca mais acreditar em nada, mas que depois desses desânimos eu volte a enxergar a beleza das (im)possibilidades, nem que seja por 2 segundos. Afinal, tudo o que sempre me atraiu tem certo parentesco com o impossível: o difícil, o distante, o abstrato, o subjetivo, o diferente, o que não existe.

Que a cada parte de mim que for amputada ou morrer um pouco por alguma daquelas decepções ali de cima, outra melhor possa crescer, mais forte, e principalmente diversa da que se encontrava apodrecida. Afinal, coisas podres são ótimos adubos.

Que meus momentos ostráceos sejam ligeiramente compreendidos pelos que me cercam, mas que eu também permita um pouco mais as pessoas no meu mundinho, principalmente se elas continuarem sendo as mais intensas, interessantes, sensíveis, malucas, exageradas e humanas. Afinal, a apatia e o equilíbrio – por mais necessário que esse último seja – me aborrecem bastante, e em se tratando de sentimentos, que fique claro: exagero é o que se tem depois da intensidade legítima, e o que se tem antes é descaso, é pouco e não me serve.

Que os pequenos gestos daqueles que me são caros, as inspirações meteóricas e as discussões fervorosas continuem iluminando o meu sorriso, estimulando meu espírito, e principalmente reavivando as borboletas narcolépticas que povoam as minhas entranhas. Mesmo que elas pareçam mortas às vezes, basta um ventinho diferente para reerguê-las. Afinal, por mais que o pouco não me sirva, há maneiras de fazer com que ele seja muito.

Que as barreiras que construí ou foram construídas em mim sejam transpostas ao invés de derrubadas, e que escrever continue sendo a melhor forma de acalmar meus fantasmas e esquisitices de temperamento. Afinal, expurga-los todos seria acabar com um pedaço importante de mim: o pedaço que chora, que se sufoca, mas que sente.